
No Pará, os homens entre 18 e 30 anos, trabalhadores de setores de serviços em Belém, são as maiores vítimas das estatísticas de acidentes de trabalho, atesta estudo do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest-PA). Na maioria dos casos, as lesões nos braços são as campeãs no Estado, que registrou 545 ocorrências em locais de emprego só em 2007. Hoje, no Brasil, os acidentes em locais de trabalho geram custos de R$ 11,6 bilhões ao ano para o sistema previdenciário nacional.
No INSS, em 2007, foram registrados no Brasil 653.090 acidentes e doenças do trabalho, entre os trabalhadores assegurados da Previdência Social. Este número, que já é alarmante, não inclui os trabalhadores autônomos (contribuintes individuais) e as empregadas domésticas. Entre esses registros contabilizaram-se 20.786 doenças relacionadas ao trabalho, e parte destes acidentes e doenças tiveram como consequência o afastamento das atividades de 580.592 trabalhadores devido à incapacidade temporária (298.896 por até 15 dias e 281.696 com tempo de afastamento superior a 15 dias) e de 8.504 trabalhadores por incapacidade permanente. Ao todo, 2.804 trabalhadores morreram no período.
Luís da Silva realizava serviços na casa de um vizinho quando a escada quebrou e uma das tábuas rasgou parte de sua perna direita. Após um ano, com cinco filhos pra criar, ele ainda não tem firmeza na perna e não pode carregar peso para realizar suas antigas funções na construção civil. “Até hoje, não sinto que aconteceu a recuperação completa da minha perna, ainda sinto choques e com o frio vem um sensação de mal-estar. Por sorte, consegui um emprego de segurança, mas não tenho certeza se voltarei a firmar minha perna, já que no pronto-socorro só fizeram um curativo e nem tiraram um
raio-x”.
A doméstica Giza Dias também exemplifica as estatísticas: acidentou-se ao lavar uma bermuda. Num descuido, uma agulha de costura que estava dentro de um bolso perfurou sua mão e os médicos não conseguiram extraí-la por completo. “Passei dois dias com parte da agulha na minha mão e com a inflamação tive que reduzir minhas atividades. Por sorte minha patroa entendeu e me auxiliou. Se não, ficaria difícil ficar sem trabalhar”, afirmou.
Ainda, com base em dados do Ministério da Previdência Social, no Brasil, em 2007, ocorreu cerca de uma morte a cada três horas, motivada por riscos ambientais no trabalho e ainda cerca de 75 acidentes e doenças do trabalho reconhecidos a cada uma hora na jornada diária. No ano, foi observada uma média de 31 trabalhadores ao dia que não mais retornaram ao trabalho devido a invalidez ou morte.
BENEFÍCIOS
Em análise realizada pelo DIÁRIO Online, se considerarmos exclusivamente o pagamento, pelo INSS, dos benefícios devido a acidentes e doenças do trabalho somado ao pagamento das aposentadorias especiais decorrentes das condições ambientais do trabalho em 2008, encontraremos um valor da ordem de R$ 11,60 bilhões ao ano. Se adicionarmos despesas como o custo operacional do INSS, saúde e afins, o custo atinge valor da ordem de R$ 46,40 bilhões. A dimensão dessas cifras explica a urgência na adoção de políticas públicas voltadas à prevenção e proteção contra os riscos relativos às atividades de trabalho. Muito além dos valores pagos, a quantidade de casos, assim como a gravidade geralmente apresentada como consequência dos acidentes do trabalho e doenças profissionais, ratificam a necessidade emergencial de construção de políticas públicas e implementação de ações para alterar esse cenário.
Os braços são os mais atingidos
Segundo os últimos dados registrados pelo Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST/PA) no ano de 2007, 545 casos de acidentes no trabalho ocorreram no Estado e foram encaminhados para atendimento no Pronto Socorro da 14 de março.
Segundo análises feitas pelo DIÁRIO Online, em Belém e Região Metropolitana foram registrados 524 casos ou 96,15% do percentual total de acidentes. Em outros municípios foram listados somente 14 casos (2,57 % das ocorrências). Não foram informados dados de um percentual de 1,28% (sete casos).
O percentual de homens lesionados lidera as estatísticas com 510 casos (93,58 %). Somente 81 casos de acidentes foram registrados com mulheres (6,42%). Dentre os mais afetados estão as pessoas entre 18 a 30 anos, com 45,32% (247) dos acidentes. Seguida por 171 casos acontecidos entre pessoas de 31 a 40 anos (31,38%) e 13,94% (76 pessoas) entre 51 a 60 anos. Os tipos de acidentes mencionados: 464 casos (85,14%) foram acidentes típicos nos locais de trabalho e 81 casos (14,86%) ocorreram no trajeto para o trabalho.
Os acidentes mais registrados aconteceram em membros superiores, num total de 38,17% (208 casos). Um total de 22,57% (123 casos) atingiram membros inferiores e 17,61% (96 casos) o tronco. Ao todo, 9,54% (52 casos) atingiram cabeças e mais de uma parte do corpo, representando um percentual de 19,08% (104 casos).
RANKING
O setor de Serviços apresentou em 2007, 46,96% dos casos, liderando o ranking dos acidentes, com 257 registros. As indústrias somaram 192 casos (35,36 %). O Comércio contou 82 casos (15,10% dos registros). Em hotéis e restaurantes, 11 casos (2,03%) foram notificados. Dois casos em fazendas (0,37%). Hospitais e clínicas tiveram um caso (0,18%).
O Supermercado Nazaré teve o maior índice de acidentes, com 34,14% (28 casos) dos 82 registros do setor varejista. Três casos foram notificados no supermercado Amazônia (3,66%); dois casos no Supermercado Líder (2,44%); e um no Supermercado Formosa (1,22%). Em outras lojas, não informadas, foi registrado um percentual de 56,10% (46 casos).
Na indústria, 67,19% (129 casos) aconteceram na construção civil. A indústria madeireira somou 28 casos (14,59%). O setor de pesca listou cinco casos (2,60%) e o estaleiro quatro casos (2,80). Outros setores não especificados somaram juntos 24 casos ou 12,50% das ocorrências de 2007.
Doenças ocupacionais deixam trabalhadores fora do mercado
As doenças ocupacionais são aquelas que estão diretamente relacionadas à atividade desempenhada pelo trabalhador ou às condições de trabalho as quais ele está submetido. O Ministério da Saúde lembra que as mais comuns são as Lesões por Esforços Repetitivos ou Distúrbios Osteomoleculares Relacionados ao Trabalho (LER/Dort), que englobam cerca de 30 doenças, entre elas a tendinite (inflamação de tendão) e a tenossinovite (inflamação da membrana que recobre os tendões).
No campo, doenças de LER/Dort acometem principalmente cortadores de cana após algumas safras, pelo excesso de movimentos repetidos. Na cidade, as categorias profissionais que encabeçam as estatísticas de LER/Dort são bancários, digitadores, operadores de linha de montagem e operadores de telemarketing.
A bancária Cínthia Souza precisou fazer uma cirurgia no pulso após ter lesionado o tendão do braço direito. “Após 25 anos trabalhando em um banco e quase sempre realizando os mesmos movimentos, passei a sentir dores constantes até chegar ao nível de não conseguir dormir. Só parei de trabalhar quando foi indispensável partir para a cirurgia. E até hoje, os movimentos ficaram limitados”. O carteiro Jurandir Pereira também sofreu com a Dort após prestar serviços por 17 anos. “Carregava peso durante o dia inteiro e não me cuidava. Em longo prazo aquela bolsa nos ombros me causou problemas e tive que me aposentar por invalidez”.
Outro exemplo de doença ocupacional é o câncer de traqueia em trabalhadores de minas e refinações de níquel. Também há doenças pulmonares de origem ocupacional, como asma e asbestose, por exemplo, causadas pela inalação de partículas, névoas, vapores ou gases nocivos.
O Sindicato dos Correios e o Sindicato dos Bancários do Pará foram procurados repetidamente, pela reportagem, para comentar os dados, mas ambos não se pronunciaram até o fechamento desta matéria.
BENEFÍCIO, COMO BUSCAR?
Trabalhador com doença ocupacional grave tem direito a pedir afastamento pelo INSS com auxílio-doença. Para isso, deve passar por perícia médica, comprovar que a doença está relacionada ao seu emprego e ter um mínimo de 12 meses de contribuição ao INSS. (Diana Verbicaro, Diário Online)

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